De: O Antagonista <newsletter@oantagonista.com>
Data: 5 de junho de 2016 10:00
Assunto: Até quando os bancos vão roubar o seu dinheiro?
Para: "marceloferreira33@gmail.com" <marceloferreira33@gmail.com>
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5 de Junho de 2016
Até quando os bancos vão roubar o seu dinheiro?
Por Felipe Miranda
É muito provável que você não se lembre, mas eu já escrevi para O Antagonista. Mantinha uma coluna semanal, batizada de Pataca, Felipe, um blend jaboticaba em alusão às patacas (dinheiro) e àquela famosa marca de relógios.
Parei por falta de tempo e – confesso -- incapacidade de gerar ideias relevantes em frequência semanal. Sabe como é: para o Mario e para o Diogo – meu sócio Rodolfo também é assim – as ideias fluem como o ar penetra pelas narinas e preenche os pulmões. Para mim, não. Cada novo texto é um parto natural, desde a originação do raciocínio até sua formulação em palavras. Conjunções e orações subordinadas, então, nossa... Uma semana não é tempo suficiente para fecundação, gestação, contração...
Meses se passaram e, com a estruturação desta newsletter, Mario e Diogo voltaram a me convidar para contribuir. Eu, obviamente, continuava como leitor assíduo – a palavra correta seria obsessivo – e, no fundo, sabia que podia colaborar com um ou dois temas esporadicamente. Até o André Feijoada marca seus gols de vez em quando.
Ainda que o processo fosse doloroso, era também recheado de prazer. Eu hoje tenho menos tempo do que antes. Tenho também menos cabelos agora – e não posso perder os poucos restantes buscando novas ideias interessantes. As poucas que me restam uso nos relatórios da Empiricus.
Acima de tudo isso, entretanto, está um negócio chamado vocação. Eu estudei durante toda a infância e adolescência no Colégio São Luís. Alma jesuíta, entende? Então, eu realmente acredito que você tem um chamado a atender.
Ok, ok, eu também não entro numa igreja há mais de ano. Ao falar da alma, me refiro àquilo que você tem de mais íntimo e visceral lá dentro de você, os seus imperativos categóricos. Alma no sentido definido por James Hilman em Soul's Code, o seu daimon, um negócio lá dentro que nem você mesmo consegue entender.
Você não pode trair essa alma, pois ela há de se vingar de você. Seu daimon tem seus próprios ancestrais e você não vai conseguir fugir deles.
A minha alma é de um alocador de recursos financeiros, próprios e de terceiros. Sou aquele sujeito que procura as melhores oportunidades de investimento disponíveis no mercado. Em palavras mais diretas: busco as melhores alternativas para ganhar dinheiro, para mim e para os outros. Esta é a minha vocação, 24x7.
E aqui entra o meu encontro cirurgicamente preciso com esta turma. Se você realmente é um alocador de recursos – e isso é muito diferente de apenas estar um alocador de recursos – você é um antagonista.
Deixe-me explicar um pouco melhor, pois isso talvez seja novo para você.
Todas as oportunidades de investimento disponíveis no mercado refletem um cenário de consenso. As cotações na tela da Bovespa ou do Tesouro Direto não resultam da aleatoriedade. Aquela ação vale tanto porque tem-se uma certa expectativa de consenso para seus lucros (sendo mais preciso, fluxos de caixa) futuros. Um determinado título público paga tal taxa de juro porque há uma projeção mediana sobre o que o Copom fará com a taxa Selic. Para o fundo imobiliário, estimam-se os fluxos esperados para os alugueres. E por ai vai.
Então, meu caro, se você tiver apenas a visão de consenso, ou seja, se você gostar do protagonista deste filme, você vai apenas ter retornos para seus investimentos em linha com a média, pois essa visão já estará refletida, previamente, nos preços.
Ou, provavelmente, seus rendimentos serão ainda piores, porque o investidor pessoa física arca com custos operacionais (taxas de administração, performance, corretagem, emolumentos) superiores aos profissionais. Você já começa o jogo para ser o grande perdedor. Você é quem paga a festa toda.
Todo verdadeiro caçador de boas oportunidades mantém posições contrárias àquelas de consenso. Se não for assim, ele existe apenas para fazer a roda girar, sendo o responsável por alimentar bancos, corretoras e governos com suas incontáveis taxas e impostos.
No mercado, ou você é um antagonista, ou você é, no máximo, um medíocre, o que já seria uma vitória.
Eu precisava lhe dizer essas palavras. Para alimentar a minha alma. O protagonismo dos mercados financeiros está com os bancos e com as corretoras. Você precisa atacar esses caras, hoje e agora.
Talvez eu não tenha ainda sido suficientemente preciso em minhas considerações. Permita-me esclarecer o ponto com apenas dois exemplos materiais. Algo precisa ficar claro aqui: se você deixa seu dinheiro investido no banco hoje, você está sendo literalmente roubado. Não há espaço para eufemismo.
O primeiro exemplo se refere à poupança – eu não começo por ela numa escolha randômica; faço questão de iniciar por aqui porque a maior parte da população brasileira deixa seu dinheiro na velha caderneta. E qual o resultado disso? Você simplesmente está destruindo seu patrimônio e transferindo riqueza para o governo.
Esclareço: hoje, a poupança rende menos do que a inflação. Ou seja, ao deixar seu dinheiro ali, você perde poder de compra a cada mês. E quem se beneficia da inflação? O governo, através de um mecanismo chamado senhoriagem.
Mas eu não quero tornar o assunto muito técnico. O recado aqui é bastante simples: você precisa tirar o seu dinheiro da poupança, imediatamente.
Vou ao segundo exemplo. Ele surge como corolário do primeiro. Qual o caminho primeiro e mais natural para o sujeito que percebe a necessidade de tirar a grana da poupança? O cara, convencido pelo gerente, aplica no fundo DI do banco. Esse mesmo fundo que cobra 1,5%/2% de taxa de administração ao ano, para não fazer administração nenhuma – em um fundo DI, não há inteligência; o gestor pega a sua grana e aplica em títulos públicos, sem pensar. Todos fazem isso.
Há um nome bastante popular para isso: roubo.
Esses são apenas dois exemplos mais óbvios dessa brincadeira toda. Pense comigo: o gerente de seu banco está interessado em gerar resultados para quem: para você, para si ou para o próprio banco? Eu tenho alguns palpites e certamente não apontam para a primeira opção.
O que você faria se estivesse doente: consultaria a um médico de confiança para saber qual medicação deve tomar ou iria até uma indústria farmacêutica perguntar se vale a pena tomar algum de seus remédios, que podem ser comprados ali mesmo pela simbólica quantia de R$ 249,00 por caixa?
Macacos ainda gostam de bananas.
Nem bancos, nem corretoras. Nem Folha, nem Valor. O Antagonista.
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